Há um número na mais recente vaga de colocações no Ensino Superior que deveria servir de sobressalto cívico: apenas 3% dos novos estudantes universitários pertencem ao escalão A da Ação Social Escolar.
Os jovens oriundos das famílias com as carências económicas mais graves estão, na prática, ausentes das nossas universidades. O famoso elevador social não está só bloqueado; os cabos foram cortados por um projeto de desinvestimento público.
Ao longo dos anos, permitiu-se que a educação fosse refém da lei do mercado. Entre a falta crónica de financiamento das instituições, a brutalidade da especulação imobiliária, o custo das propinas e a inflação artificial de notas nos colégios apoiados numa máquina de explicações privadas, o Estado deu um passo atrás. E o vazio deixado foi ocupado por quem pode pagar.
Para suportar este sistema desigual, o país recorre frequentemente a uma narrativa enganadora de superação. No final do verão, os ecrãs de televisão e as capas dos jornais enchem-se de exemplos notáveis: alunos excecionais que atingem a perfeição do 20 absoluto. Embora o brilhantismo e o trabalho destas jovens sejam inegáveis, o uso mediático destes casos é perigoso. Passa-se a falsa ideia de que qualquer pessoa, independentemente da sua origem, chega ao topo se apenas se esforçar o suficiente. O que estas histórias de sucesso ocultam é o ecossistema que permite a tantos florescer: a ausência da angústia de não ter como pagar as contas, as horas de explicadores privados, o acompanhamento familiar de proximidade, o acesso a apoio psicológico e a tranquilidade de saber que o quarto na cidade universitária já está garantido. Vender estas exceções como a regra é um truque cruel, pois transforma o privilégio socioeconómico numa mera questão de força de vontade.
Fica deliberadamente esquecida a realidade de um outro Portugal. Falamos dos jovens que entram na sala de estudo depois de um turno a servir à mesa para ajudar nas despesas da casa. Aqueles que perdem a concentração porque assumem o papel de cuidadores dos irmãos mais novos, ou de familiares doentes, suprindo as falhas do Estado. Jovens que lidam com a ansiedade e a depressão, mas perdem-se em meses de espera por uma consulta pública. Que não têm um espaço calmo para ler, nem bibliotecas em casa.
Quando estes estudantes e aqueles que têm o seu tempo, alimentação e segurança totalmente protegidos se sentam frente a frente no dia do exame nacional, o papel que lhes entregam é igual. Mas o ponto de partida e o percurso até àquela cadeira não poderiam ser mais distintos. Reconhecer que a prova não é justa não retira o mérito a quem tira boas notas, mas obriga-nos a rejeitar a tese ingénua de que uma pauta escolar espelha apenas a inteligência e o suor de quem estuda. Uma nota avalia também a estabilidade da família, o capital cultural, o tempo livre e o saldo da conta bancária.
Ainda assim, para os heróicos 3% mais carenciados que conseguem a proeza de entrar, o verdadeiro desafio começa a seguir. Ganhar uma vaga não é sinónimo de conseguir frequentar o curso. O entusiasmo de ver o nome na lista esbarra rapidamente na violência do pagamento da matrícula, na renda do quarto, no passe, nos livros e na alimentação. Muitos acabarão a trabalhar tantas ou mais horas do que aquelas que passam nos anfiteatros, condenados a um cansaço que lhes compromete o rendimento académico.
Há uma massa invisível de jovens que o sistema exclui, seja antes sequer do período de candidaturas ou a meio do percurso, porque as famílias simplesmente não conseguem suportar a fatura. E, no entanto, contra todas as probabilidades, os números desmontam qualquer preconceito sobre a capacidade destes jovens.
A OCDE concluiu que, quando estudantes de diferentes níveis de rendimento entram em cursos comparáveis, as taxas de conclusão são semelhantes. Mais revelador ainda: nos cursos mais seletivos, 73% dos estudantes do escalão A concluíram a formação analisada, comparando com 71% dos estudantes de rendimentos mais elevados.
Este dado é a prova irrefutável de que o abandono ou a exclusão não são falhas de caráter, de inteligência ou de resiliência. O problema não é a falta de talento; é, única e exclusivamente, o muro financeiro. E quanto talento não é assim desperdiçado.
Enquanto limitarmos a nossa resposta a aplausos virtuais pelo mérito, a bolsas que pingam meses atrasadas ou a quotas paliativas, nada mudará. A universidade precisa de medidas estruturais urgentes: o fim da barreira financeira das propinas e a construção massiva de camas públicas em vez de remendos provisórios. Até que o financiamento do Estado garanta que ninguém fica de fora por falta de dinheiro, o Ensino Superior será apenas um espelho do fosso que divide o país, falhando o seu compromisso básico com a justiça social. Celebrar a meritocracia sem garantir a igualdade de oportunidades não é premiar o mérito — é, tão-somente, legitimar quem já nasceu no topo.
