Já não a estranhamos, ou talvez sim. É bem evidente que a comunicação vem, nos últimos tempos, perdendo autenticidade pelo facilitismo com que a inteligência artificial (IA) se entranha nas mais variadas áreas com a pretensão de substituir tarefas intelectuais. Da publicidade às artes, da educação ao jornalismo, dos serviços à comunicação institucional.
Importa por isso refletir sobre o peso da uniformização da imagem e da linguagem – pese embora o reconhecimento generalizado sobre o cariz inovador da IA – considerando que é simplista a criação de conteúdos amplamente partilhados no mundo digital, arcaicamente mimetizados em milhares de publicações a que não são alheias falhas, imprecisões e até uma marca gráfica que vamos aprendendo a identificar. Um conteúdo que nos é imposto sob o desígnio dos ímpetos do algoritmo, a um ritmo vertiginoso, como um manto imenso e opaco prestes a cobrir todo o processo inventivo, como se, sob o comando do novo e brilhante intelecto, ficássemos agora dispensados de pensar, criar e evoluir. E quando se opta por comunicar valores democráticos e mensagens políticas partindo desta imensa fragilidade é a própria liberdade democrática que corre o risco de corromper.
Apesar de se apresentar como uma ferramenta acessível e de grande aplicação, o recurso à IA não tem de ser uma sentença para a humanidade nem para o humanismo. É uma opção.
A IA é, porém, um risco para ambos, se teimarmos em ignorar o preço demasiado elevado para o planeta e os seus recursos, e consequentemente para a integridade individual, a força do trabalho, a dignidade e qualidade de vida de quem deles depende. E não dependeremos todos nós: um trilionário e todos os demais?
Apesar de recente, esta tecnologia já surtiu um falhanço monumental. A proliferação de mega centros de dados veio a revelar enormes fragilidades no sistema energético dos EUA, cujas big-tech lidam com o fim do sonho da supremacia da IA, à medida que colapsam as infraestruturas elétricas face à insustentabilidade da exigência de consumos dos servidores e sistemas de armazenamento. Neste contexto não será pois de estranhar que a população norte-americana esteja a pagar cara esta fatura: os preços da eletricidade subiram 76% na maior rede elétrica do país operada pela PJM, e isto se somam custos e riscos face a apagões.
Para melhor se perceber a dimensão destes impactos, importa referir que um centro de dados consome, em média, tanta eletricidade como 100 mil casas. Contudo as mais recentes infraestruturas exigirão 20 vezes mais energia, o que é insustentável.
Portugal e Espanha estão por este motivo na mira dos investidores, quando tudo se resume a números. De acordo com o estudo da consultora McKinsey, a Península Ibérica está posicionada na linha da frente para liderar a computação de hiperescala, equivalente a 500 mil milhões de euros por ano até 2030.
Como empurrar os impactos para o sul da Europa, e a que custo? O mote: renováveis.
O estudo aponta para a necessidade da Europa triplicar a sua capacidade de computação até 2030 e para tal a energia é um fator crítico. A península ibérica, considerados os excedentes de energia renovável, por um lado, e por outro os valores da eletricidade industrial em Portugal (abaixo da média europeia), surge como o alvo para a instalação dos novos projetos de computação de grande escala. Mas como ignorar a fragilidade do nosso sistema energético perante o apagão que afetou a península ibérica, precisamente no momento em que operava com uma quota muito elevada de fontes renováveis (superior a 75-80%)?
Por outro lado, Portugal está na mira da IA por poder ser a porta de entrada, através da ligação a Sines, e a empresas como a gigante “verde” Start Campus, ligando a Europa à América do Sul, através dos grandes cabos submarinos internacionais de alta capacidade.
“Todos estes dados devem preocupar-nos, independentemente
da localização geográfica destes megaprojectos.
Falamos de impactos globais que constituem um enorme
travão na necessária engrenagem pela ação e defesa climáticas. “
Estes mega projetos serão certamente vendidos em nome da “energia verde” e da “sustentabilidade assente em renováveis”, quiçá invocando o “superior interesse público” que invariavelmente faz prosperar o interesse privado a custo da alienação do bem público (quase sempre monopolizando recursos naturais como a água, e de que este caso não é exceção).
Os impactos dos centros de dados e do rápido crescimento da IA não são apenas sobre os níveis de emissões de gases com efeitos de estufa ou sobre as ondas de calor que provocam num raio de a 10 km do seu local de implantação. É essencial aferir os impactos diretos na terra, na água e no clima, considerando todas as cadeias de suprimentos, incluindo “centros de dados, chips, geração de eletricidade, sistemas de refrigeração, captação de água, ocupação do solo, minerais críticos e resíduos eletrónicos” imensuráveis, como alerta um relatório da ONU.
A nível global, a emissão de carbono associada ao aumento do consumo de eletricidade pelos centros de dados corresponde, em média, a 399 milhões de toneladas de CO2, exigindo 6,7 biliões de árvores para ser compensada. Em 2030, é estimado que o consumo de água associado aos centros de dados venha corresponder ao equivalente do consumo anual de 1,3 mil milhões de habitantes. Entre 2025 e 2050, a produção elétrica mundial deverá por este motivo, aumentar em 85%, sendo que em 2050 a IA deverá consumir 8% do total da energia produzida a nível global.
Se acrescentarmos que as criptomoedas, com cada vez maior utilização a nível mundial, e que requerem igualmente astronómicas quantidades de eletricidade para serem geradas de forma segura, estamos de facto perante o problema global de grande escala.
Todos estes dados devem preocupar-nos, independentemente da localização geográfica destes megaprojectos. Falamos de impactos globais que constituem um enorme travão na necessária engrenagem pela ação e defesa climáticas. Por isso, enquanto ecologistas, é nosso dever pugnar pela transparência sobre os impactos socioambientais da IA, dos consumos, produção e segurança energéticas, a efetiva avaliação do real consumo de água, o impacto sobre o clima e o solo, os riscos associados ao crescente problema associado à deposição e descarte de lixo eletrónico mas também a cibersegurança. Ao tomarmos decisões políticas que visam concentrar uma enorme riqueza do lado das grandes corporações, não é difícil prever o desinvestimento em toda a linha dos serviços públicos e nos seus recursos humanos. À medida que a IA substitui procedimentos e postos de trabalho, não podemos esperar senão o agravar da precariedade laboral e intelectual.
A IA não é neutra. Ignorar os seus riscos presentes e para o futuro é arriscar um salto no abismo perante uma infraestrutura de poder que se apresenta sorrateira nas nossas vidas sem que nos tivéssemos munido alguma vez, e até hoje, de mecanismos democráticos capazes de a travar quando, ou agora que, é ténue a fronteira entre o que vem para nos servir e o que impõe o nosso servilismo.
Porto, 23 de junho de 2026
Ana Sofia Cabeleira
Membro da Comissão Executiva do PEV
